14 de novembro de 2012


PERA ROCHA DO OESTE
 

Pera Rocha, um dos sectores exportadores mais importantes da região Oeste (cmjornal, 18.VI.2011)

 

A Pera Rocha do Oeste é um fruto oval entre 55 – 65 mm de tamanho, de cor amarela a verde clara, casca fina e lisa, cuja polpa é branca, a textura rija, firme e granulada, sumarenta e de sabor doce.

Ainda que a produção de Pera Rocha se concentre maioritariamente nos concelhos do Cadaval e do Bombarral, na região Oeste de Portugal, a restante área de produção mais significativa estende-se a Sintra (de onde será originário este fruto), Torres Vedras, Caldas da Rainha, Alcobaça, Lourinhã, Óbidos e Mafra.

Investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Instituto Politécnico de Santarém concluíram que, entre algumas variedades de pera, a Pera Rocha possui uma importante capacidade antioxidante, além de ter maiores níveis de outros compostos químicos reativos contra os radicais livres implicados na deterioração do DNA e no cancro.

Colhida em Agosto e com um período de venda que decorre até finais de Maio (entre Junho e início de Agosto, não se encontra disponível no mercado), a Pera Rocha do Oeste pode ser consumida entre refeições e / ou como sobremesa, simples ou como ingrediente em doçaria, em conserva, saladas, iogurtes, com ou sem casca. Pode igualmente ser bebida através de néctares, sumos ou mesmo em licor de Pera Rocha do Oeste.

Cerca de 70% da produção de Pera Rocha do Oeste é consumida no mercado nacional. Os principais países importadores deste fruto são a Inglaterra e o Brasil, vendendo-se também na Irlanda, França, Canadá, Rússia, Polónia, Bélgica.

A história mais contada sobre a origem da variedade desta pera remonta a 1836, ano em que foi identificada no concelho de Sintra, na propriedade do Sr. Pedro António Rocha, uma pereira diferente, com frutos de qualidade invulgar. A fama ter-se-á espalhado e na região Oeste foram-se enxertando árvores a partir da original, tornando-se o produto conhecido como “Pera Rocha” (apelido do proprietário da árvore). A exportação ter-se-á também iniciado no século XIX mas o maior incremento deu-se a partir da campanha de 1991.

13 de novembro de 2012


QUEIJO DE SERPA
 

“A cidade branca (Serpa) enfeitiça os forasteiros com imperial e queijo, castelo e muralha, cascatas e terras à volta.”
(DN, 02/08/2012)

 
O Queijo Serpa é possivelmente o queijo tradicional mais famoso do Alentejo, com aroma forte e sabor picante. Trata-se de um queijo de ovelha curado, de pasta semi - mole, amanteigada – podendo mesmo entornar – com teor de humidade de 61% a 69%, cor branca amarelada, obtida por esgotamento lento da coalhada após a coagulação do leite cru de ovelha (filtrado através de panos de lã dobrados até 40 vezes), por ação de uma infusão sal e cardo vegetal. No corte da coalhada são utilizados apenas quatro movimentos ligeiros, que se presume estarem associados a tradições religiosas, antes de serem curados durante 30 dias em ambiente fresco e húmido nas “rouparias” – termo utilizado pra “queijarias”, devido à cinta de pano branco colocada à volta do queijo, para lhe dar forma.

Com tecnologia de fabrico oriunda da Serra da Estrela, o Queijo de Serpa adquiriu características muito próprias devido às condições climáticas, de solos e pastagens da sua região de origem, o concelho de Serpa, hoje em dia alargado a 12 concelhos do distrito de Beja – Aljustrel, Almodôvar, Alvito, Beja, Castro Verde, Cuba, Ferreira do Alentejo, Mértola, Moura, Ourique, Serpa e Vidigueira, além de 2 freguesias do concelho de Odemira – e a algumas freguesias dos concelhos de Alcácer do Sal, Grândola e Santiago do Cacém, do distrito de Setúbal. Outra diferença relativamente ao queijo da Serra (e ao de Azeitão) diz respeito à raça das ovelhas.

Este queijo em formato de cilindro é comercializado sob a forma de merendeira, com peso compreendido entre 200 gr e 250 gr, em tamanho normal, entre 1.000 gr e 1.500 gr, ou sob a forma gigante, com peso entre 2.000 gr a 2.500 gr.

Passado o tempo de cura, o Queijo de Serpa fica com uma capa maleável fina e ligeiramente rugosa, de cor amarelo palha. Se conservado durante mais de dois anos, em ambiente fresco, torna-se rijo e seco.
 A origem do Queijo de Serpa, mais consumido no Sul de Portugal e à venda em grandes superfícies, perde-se nos tempos. Actualmente, uma das marcas que produz esta iguaria em Serpa já exporta para a Suíça, Espanha, Holanda, Angola e Timor. Localmente, todos os anos, no final de Fevereiro, a autarquia de Serpa prima o emblemático produto, base da sustentabilidade económica e cultural da região, promovendo-a também a Feira do Queijo do Alentejo.
 

12 de novembro de 2012


CABRITO DA BEIRA

Cabrito, um alimento de sacrifício e dedicação aos deuses.
 
O Cabrito da Beira é obtido a partir de cabras das raças portuguesas Charnequeira ou Serrana, ou de animal resultante do cruzamento destas duas raças. Ambas as raças, há muito tempo instaladas na Península Ibérica, são criadas em pastoreio extensivo na região da Beira (a Charnequeira nas charnecas da zona sul da Beira Interior e a Serrana, como o nome adivinha, na Serra da Estrela), são maioritariamente alimentadas de leite materno e possuem baixa estatura.
Os cabritos são abatidos entre os 40 e os 45 dias de vida, quando ainda têm um peso inferior a 15 kg. (a carcaça, o principal produto comercializável, com cerca de 6kg). Apresentam cor rosa-pálido, textura tenra e paladar suave e aleitado devido à alimentação que levaram.
Segundo a Identificação Geográfica Protegida (IGP), a produção de Cabrito da Beira compreende os concelhos de Almeida, Belmonte, Castelo Branco, Covilhã, Figueira de Castelo Rodrigo, Fundão, Guarda, Idanha-a-Nova, Mação, Meda, Oleiros, Penamacor, Pinhel, Proença-a-Nova, Sabugal, Sertã, Trancoso, Vila de Rei e Vila Velha de Rodão, onde os pastos são constituídos por gramíneas e leguminosas espontâneas.
As populações que ao longo dos séculos se fixaram na região da Beira Interior, em grande parte dominada por zonas de montanha e de floresta, pouco propícias à agricultura, encontraram na criação de gado miúdo, designadamente caprino e ovino, um óptimo substituto alimentar. Actualmente, embora seja procurado durante todo o ano é uma iguaria obrigatória na ementa da Páscoa, na sua região de origem. Tradicionalmente o Cabrito da Beira assado constitui uma das formas mais conhecidas de servir esta carne, contudo a gastronomia típica beirã apresenta igualmente o cabrito na brasa, ensopado ou estonado. Nesta última variedade, o cabrito não é esfolado, mas retira-se-lhe só os pelos, deixando a pele limpa e lisa, que uma vez cozinhada fica estaladiça e como tal, permite que a carne não perca gordura, ficando suculenta e mais saborosa.
 

11 de novembro de 2012


JEROPIGA
 

“No S. Martinho vai ao pipo da jeropiga e bebe um copinho.”

 

A Jeropiga é uma bebida alcoólica tradicional de Portugal, em particular, das regiões do Minho, Trás-os-Montes, Beira Interior e Ribatejo. Prepara-se adicionando uma quarta parte de aguardente ao mosto de uva abafado para impedir a fermentação, ficando a bebida mais doce e mais alcoólica que o vinho (com uma graduação máxima de 18º e teor mínimo de açúcar de 7 gr por 100 mililitros do produto), em madeira de carvalho, o que lhe dá um sabor especial.

A Jeropiga costuma acompanhar o magusto no dia de S. Martinho (11 de Novembro), mas para além desta data conserva-se como o vinho do Porto e continua a ser excelente para acompanhar outros frutos secos como nozes, avelãs ou figos e mesmo alguns doces tradicionais de Natal como filhós, fatias douradas ou broas.

A designação “Jeropiga” terá equivalência etimológica a “xaropiga”, inventada a partir de xarope, por ser uma bebida doce.

10 de novembro de 2012


BOLA DOCE MIRANDESA
 
 

a bola tem de ser bem fechada «para não entrar avêlha» -  Alzira Marcos, doceira de Miranda do Douro

Um dos trunfos gastronómicos do concelho de Miranda do Douro, a Bola Doce Mirandesa é uma iguaria confecionada à base de ovos, manteiga, azeite, farinha de trigo, fermento, açúcar e canela.

A Bola Mirandesa é, ao contrário da maioria dos folares doces pascais, um doce húmido. As doceiras tradicionais locais defendem que esta iguaria não deve ser confecionada com massa do folar de carnes, porque a bola doce “não quer massa crescida”. Assim, a massa, igual à do pão, mas mais fina, é intercalada com camadas de açúcar e canela e o recheio também é feito a partir de camada sobre camada. No final a bola tem de ser bem fechada, para evitar que a massa de dentro “transborde”. O aspecto final da bola doce é um pouco grosseiro. No entanto, por dentro, descobre-se uma massa surpreendentemente fofa e, devido ao recheio de açúcar e canela, húmida.

Trata-se de um bolo tipicamente local, único no país, mais consumido nos lares mirandeses, desde que há memória, por altura da Páscoa, cuja valorização a Câmara Municipal tem vindo a divulgar com tamanho êxito, no evento anual Feira dos Sabores Mirandeses e que é rapidamente esgotada pelos forasteiros.

9 de novembro de 2012


VINHO DE CARCAVELOS

 

"os tão famosos quanto raros vinhos de Carcavelos…"

 

O Vinho de Carcavelos é um vinho licoroso tinto e branco – com direito a menção específica de “Vinho Generoso”, delicado, com graduação alcoólica que varia entre os 17.5 e 20 graus, de cor topázio, aveludado, notas de frutos secos, mel, ligeira madeira, sabor doce, macio, com corpo e persistência, boa estrutura de boca e complexidade com um certo aroma amendoado, adquirindo um perfume acentuado e característico com o envelhecimento. Dependendo do seu nível de doçura, é geralmente classificado como vinho de sobremesa que deve ser servido à temperatura ambiente, em copo tipo Porto, mas também pode ser apreciado como aperitivo, aqui fresco, sobretudo a acompanhar queijo picante.

As castas mais utilizadas no fabrico deste vinho são a Trincadeira, a Galego-Dourado, a Espadeiro e a Negra Mole, embora se possam também usar as castas tintas Periquita e Preto Martinho e outras brancas Boal, Ratinho e Arinto.

O Vinho de Carcavelos é produzido nos concelhos de Cascais e de Oeiras, uma região de clima mediterrânico temperado, sem grandes oscilações de temperatura devido à proximidade marítima, exposição a Sul e ventos dominantes de Norte, que exercem ação de proteção dos vinhedos contra a influência negativa da proximidade do mar, proporcionando, deste modo, um clima favorável à produção de mosto de qualidade, favorecendo as boas condições de maturação das uvas. O maior número de vinhas localiza-se em Cascais – no Vale de Caparide, freguesia de S. Domingos de Rana e na freguesia de Carcavelos. Em Oeiras, é produzido na Estação Agronómica Nacional (EAN). Devido ao grande crescimento urbano da zona, a região hoje ocupada pela vinha é muito pequena, razão pela qual o Vinho de Carcavelos nem sempre se encontra disponível no mercado como outros vinhos portugueses.

A fama dos vinhos de Carcavelos perde-se no tempo. De acordo com uma escritura de aforamento, a videira cultiva-se em Carcavelos desde o século XIV. Existem ainda registos de exportação de Carcavelos para Inglaterra, no século XVII. Na segunda metade do século XVIII, algumas quintas da região foram alvo de reestruturações importantes, que as transformaram em propriedades de grande dimensão a nível local, mas todas estas explorações tiveram o vinho como produto central na sua economia.
O Marquês de Pombal, que o produzia na sua quinta de Oeiras colocou-o no plano do vinho do Porto e do vinho da Madeira e apreciava-o de tal maneira que D. José I presenteou com ele a corte de Pequim em 1752. Durante séculos, a produção deste vinho foi a actividade económica mais importante da região. Aliás, de acordo com documentação da época, o Carcavelos terá mesmo atingido uma produção de três mil pipas no início do século XIX, em resultado do significativo volume de exportação para Inglaterra. A exportação de grandes quantidades deste vinho para Inglaterra deveu-se à prolongada permanência, nesta região, do exército inglês comandado por Wellington, no tempo das invasões napoleónicas.
Em 1994 a região demarcada foi alargada à área entre as ribeiras de Bicesse e de Porto Salvo. De acordo com a regulamentação em vigor, para ser considerado Vinho de Carcavelos legítimo, o produto precisa de ser originário de vinhas da região demarcada, com dois anos, no mínimo, de estágio em madeira e seis meses em garrafa.

Em 2008, foi fundada a Confraria do Vinho de Carcavelos, iniciativa com a qual se pretende garantir a preservação, produção e divulgação desta iguaria nos mercados nacional e internacional.
O ano de 2011 trouxe três medalhas de prata a uma marca deste vinho, distinguido na categoria de vinhos licorosos, no Concurso Internacional de Vinhos “Selezione del Sindaco 2011”, que decorreu em Roma e no 5º Concurso Nacional de Vinhos de Lisboa.

8 de novembro de 2012


CASTANHA DE MARVÃO
 
... parece estremasse a natureza na fresquidão do arvoredo."

(Frei Amador Arrais, sobre os castinçais de Marvão)



Algumas iguarias tipicamente portuguesas repetem-se na geografia do território nacional. Um destes casos é a castanha. Já neste blogue homenageámos a Castanha de Vinhais, hoje merece consideração a Castanha de Marvão.

Com efeito, a produção nacional de castanha assenta nas cultivares Longal, Martaínha e Judia, em Trás-os-Montes, Martaínha na Beira Interior e Bária e Clarinha no Alto Alentejo. Traduzindo-se em Denominação de Origem Protegida (DOP) temos: Castanha da Terra Fria, Castanha dos Soutos da Lapa, Castanha da Padrela e Castanha de Marvão - de acordo com especialistas, a região de Marvão é a "única a Sul do Tejo" onde se verifica a existência de castanheiros.

A Castanha de Marvão, de cor castanho escura baço (a variedade Bária) ou castanho – avermelhada brilhante (a variedade Clarinha) é produzida nos concelhos de Portalegre, Marvão e Castelo de Vide, nas variantes fresca e seca ou pilada.

Com uma produção anual que ronda as 460 toneladas distribuídas por 258 produtores, a apanha da Castanha de Marvão decorre nos meses de Outubro e Novembro, sendo entregue no próprio dia na cooperativa, onde se procede à limpeza, seleção (eliminação do fruto bichado, com defeitos ou com características diferentes da espécie), calibragem (rejeita-se a castanha com tamanho inferior a 24 mm) e acondicionamento, ou vendida directamente ao consumidor, à porta da exploração agrícola. Sempre que necessário recorrer-se à transformação, esta ocorre em unidade industrial, ainda que com grande parte de intervenção manual.

No caso da castanha pilada, esta dá entrada no “secadeiro” – cujo lume é feito com madeira de várias origens – até começar a “suar” e seguidamente é fechada em compartimento durante cerca de 40 dias.

O castanheiro e a castanha modelam a paisagem do nordeste alentejano, fazendo parte dos usos e costumes da gente desta região do Alentejo. Desde que há memória em Marvão que serve como fonte alimentar de humanos e de animais e nos dias de hoje este fruto é também promovido em festa, feira e semana gastronómica e de doçaria, iniciativas que têm como principal objectivo a recuperação da gastronomia à base da castanha local.